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Crítica: Kajillionaire (2020)

A minha sensação é que 2020 foi um ano lotado de filmes sobre família e também sobre como filhos se relacionam com pais. Seja no ótimo Minari que achou uma forma muito particular de discutir tudo isso enquanto fala sobre imigração e cultura ou seja com metamorfose dos pássaros que discute tão afundo a relação da mãe e como essa experiência consegue ser pessoal ao mesmo tempo que universal, exemplos são o que não faltam. O sentimento é que o filme da Miranda July protagonizado pela Evan Rachel Wood seria apenas mais um, sem muito de especial, num ano tão cheio de filmes sobre o assunto. E o filme não só se mostra único nesse aspecto, como ele também consegue nos primeiros minutos se mostrar muito estranho e real enquanto traz também questões interpessoais discutidas de maneira inteligente.

Kajillionaire começa com um pequeno roubo, um dos pequenos roubos onde Old Dolio e seus pais conseguem tirar dinheiro para pagar o aluguel e sobreviver, mas ultimamente -ou talvez em geral mesmo – eles não tem conseguido fazer muito dinheiro disso. E é a partir desse enredo simples em sua apresentação e até meio comum, parecido com outros filmes sobre o tema como o ótimo shoplifters de 2018, que a gente entra num filme muito afim de discutir parentalidade de uma forma que apesar de muito séria tem seus divertimentos e acha mesmo em seus momentos sombrios e reais uma coloração vibrante, que não se compromete com a seriedade que o filmes poderia levar como regra. Aqui o filme tem aquele sentimento de filme indie estadounidense, muito parecido com o que se tira de um filme como florida project ou até um desses filmes do wes anderson se você olhar para as cenas onde o filme se concentra em tons mais pasteis.

Entretanto o ponto mais impressionante é que aqui o filme se difere não pelo modo que discute o tema que em si não tem muito segredo, usar um exemplo muito extremo para tentar explicitar o quanto os pais dessa menina tem influencia sobre quem ela é e como isso cria traumas realmente muito profundos não é realmente tão difícil dentro da forma caricaturada como o mundo escrito por chloe zhao ganha vida, porém dentro disso é incrível a criação de personagens que de tão divertidos quanto quebrados criam um elenco bem especial para habitar esse filme, que quando necessita se transforma completamente em um filme de roubo muito mais que simplesmente competente.

E além de toda a parte parental o filme também parece querer discutir uma ansiedade social, aqui levada ao seu mais extremo, talvez por isso seja tão fácil para mim me aproximar do que esse filme faz e muito provavelmente esse filmezinho que parece muito com algo que se perderia no meio da onda de indies, que tem saído do estados Unidos nos últimos 10 anos, só ressone comigo tão profundamente por conta disso. Old Dolio, assim como eu em uma certa medida, não consegue se deixar relacionar com as pessoas a sua volta e nem se soltar fisicamente ou emocionalmente. Nos primeiros minutos de filme a vida dela se resume aos próprios pais, e tudo que escapa disso acaba sendo uma experiência muito forte para ela, seja uma massagem, uma conversa com um estranho ou uma aula sobre maternidade – a qual ela acaba indo para ganhar uns trocados – tudo a sua volta que penetre a casca criada pelos pais dela a deixa instável.

E assim, nesse esquema de se aprofundar no emocional da personagem principal enquanto avança a narrativa, o filme vai acompanhando os golpes dessa família. Onde ao mesmo tempo que esclarece quem são esses personagens também discute seus temas em pedacinhos pequenos, as vezes só tangenciando o tema principal outras sendo bem direto no que o filme quer nos contar. O importante aqui é que o filme não vire apenas uma montagem de golpes e ele faz uso de alguns tipos de brincadeiras para tirar essa sensação do espectador. Sendo na variedade de golpes, ou nos momentos de respiro, onde fica mais claro ainda os problemas financeiros da família, o filme sempre se encontra em cenas cada vez mais divertidas, quer dizer, pelo menos até o fim da primeira metade.

Apesar disso tudo, o filme poderia ser melhor executado e um pouco menos bagunçado em sua estrutura narrativa, que acaba deixando bem óbvio armas de chekovs que serão usadas no terceiro ato. Além do filme também tender a ser bastante piégas, talvez numa tentativa de se tornar o grande feel good movie do ano, ele acaba terminando numa nota bem negativa para mim. Apesar é claro, do seu segundo ato ser tão bom quanto o primeiro apesar de uma mudança completa na estrutura narrativa após o mid-point.

Dito isso, é importante dizer que todas as vezes que a casca da Old Doly é quebrada existe um esforço tanto cinematográfico quanto narrativo de tornar aquele momento especial, e na maioria das vezes funciona muito bem. Tem muito para amar aqui, apesar, é claro, dele ter seus escorregos na hora H, quando o filme deixa a personagem ser menos introspectiva. Na minha opinião a diretora poderia apostar mais em planos detalhe como ela fez em um certa cena envolvendo uma unha, isso poderia trazer para o filme uma sensação muito mais tátil e tornar alguns momentos ainda mais especiais. Por conta dessa falta de cuidado existe um problema com a aproximação que deveria ser o ponto central da narrativa, ela acaba não sendo sentida tanto na tela quanto deveria pelo o que o roteiro dar a entender. Na verdade o roteiro parece pedir por uma sultileza que a diretora com certeza tem e a qual ela consegue passar por nuances os detalhes, mas infelizmente ela peca quando eu acho que seria mais importante.

Ademais o terceiro ato começa muito bem, para infelizmente terminar numa nota bem baixa, como já dito antes, mas acho importante também discutir como ele consegue trazer uma nova perspectiva para os dois personagens mais presentes nessa parte, é sucinto o nascimento dessa relação e eu sinceramente adoro como ela se mostra pelos pequenos detalhes, só é triste a ultima cena ser um clichê tão grande, tentando entregar muito mais do que o roteiro do filme tem para dar.

Todo esse filme tem um entorno bem especial, e eu acho que deveria ser mais celebrado. Foi uma das maiores surpresas do ano para mim, que não esperava nada além de um filmeco indie autoindulgente. A verdade é que apesar de todos os problemas, Kajillionaire é um dos poucos filmes de 2020 que eu realmente me apaixonei, a medida que o tempo foi passando, eu só queria que ele não acabasse, até que ele acabou e eu fui deixada com essa vontade de rever imediatamente esse filme, e passar de novo por todos os sentimentos, que o filme me levou.

Nota: 4.3/5.0

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A dificuldade da representatividade trans no cinema

Desde I dont want to be a man até Pose, a historia da representatividade trans em filmes e séries tem sido no mínimo complicada. Algumas vezes a complexidade de falar sobre gênero pode ser um problema, mas muita vezes a falta de sensibilidade com a comunidade trans em si, se torna o problema. Talvez o maior problema realmente, seja estarmos numa industria majoritariamente tomada por pessoas CIS, que na tentativa de produzir obras que incluam, acabam apenas ferindo a comunidade.

São casos e mais casos de filmes que ultilizam de esteriotipos, como o estuprador, o psicopata, o desequilibrado e o louco, que ajudaram a criar uma imagem do transgenero, o travesti e o crossdresser, como alguém desequilibrado psicologicamente, ou até mesmo como uma pessoa agressiva. Além de , é claro, muitas vezes confundir o que é uma pessoa trans, com um crossdresser, com uma drag e assim por diante. Desde o assassino que se veste da própria mãe, em psycho, passando pelo psicopata que rouba a pele das vitimas para se sentir mais mulher, até o mais recente “assassino transsexual” do novo romance da JK Rowlling. Esse é um trope recorrente, muitas vezes dito ser baseado no serial killer Ed Gein, que não tinha nada de travesti, mas de alguma forma, o fato dele usar a pele de pessoas como trófeu, foi fortemente associado a transgeneridade em filmes como The Silence of the Lambs e Dressed to Kill. Esse tipo de trope, usa medo para justificar preconceito, e afeta o imaginário popular do que é ser uma pessoa trans, e não é o único exemplo de obras colocando a gente nessa posição.

Existe também a nossa retratação como o ridículo, o palhaço, o feio. É normal vermos obras tratando travestis apenas como o marginal, a beira da sociedade e desesperado, mesmo que apesar de por consequência de uma sociedade completamente quebrada e desigual, ser uma realidade para muitas travestis, a gente também precisa de nossas histórias sobre aceitação. Se love, simon , apesar de ser um filme na minha opinião medíocre, consegue ser um respiro para uma comunidade gay, que só se vê nas telas sendo ostracizada, nós aqui estamos a beira de morrer de asfixia, pois se para eles um respiro é raro, para nós é quase inexistente. Inclusive é por isso que como pessoa transé tão importante criticar a narrativa de personagem trans proposta por The Last of Us part 2, quando toda ela é focada apenas em extrair a dor do personagem, um pornô de tortura, feito para pessoas CIS se sentirem benevolentes por sentirem pena do pobre menininho trans. É algo que para os despidos olhos CIS passa despercebido, como passou por boa parte da “comunidade gamer”, que prefere reclamar por não poderem ver uma mulher musculosa.

A verdade é que para todo lado que olharmos, as pessoas não estão preocupadas em tentar entender o que nós passamos, e o que nós sentimos. Ninguém consegue falar sobre transgeneridade como nós mesmos e toda vez que um CIS toca no assunto e tenta se aprofundar ele retira algo da gente, que não é direito dele, seja explorando nossos deadnames, nossos sofrimentos, nossos problemas ou simplesmente vilanizando quem nós somos.

E mesmo assim, até quando estão falando sobre a gente, teimam em não nos chamar, somos minoria na atuação, na produção, na edição, e na direção de filmes que falam sobre nós mesmos, e isso não só não é correto com a narrativa -que nunca conseguiria ser tão profunda quanto se fosse escrita por uma pessoa trans- quanto não é justo para nós como profissionais da área, que lutamos para encontrar um lugar, que estão sendo dados para pessoas CIS, nos retirando nosso lugar de fala na arte, e nos empurrando para a marginalidade, então toda vez que você ver um ator CIS fazendo papel de um travesti, uma mulher trans ou um homem trans, pense na porta que se fecha para alguém que já não tem muitas portas.

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Crítica: Color out of space (2020)

Color out of space é o novo filme do diretor sul africano Richard Stanley, que vem de uma longa carreira de filmes que beiram ao terror b e aqui ele tenta criar algo parecido, com o que fez em Dust Devil, mas em um cenario muito mais de terror cósmico.

Mas afinal o que é um terror cósmico? Qualquer terror que tenha como aspecto principal algo vindo do espaço? Ou a questão da vastidão e do existencialismo inseparável da finitude de si próprio em comparação com algo tão vasto? Todo modo, é assim que A cor que caiu do céu, conto que serve de referência para o filme, estrelado por Nicolas Cage, é entitulado. Aliás toda a obra do H.P. lovecraft é rodeada dessa mística aura de coisas grandiosas que não podemos nem sequer compreender e um existencialismo latente, a qual infelizmente, color out of space não consegue fazer jus.

Um objeto estranho atinge o jardim da família Gardner, ele vem junto com uma luz forte de uma cor nunca antes vista (roxo), e coisas estranhas começam a acontecer com a família e os arredores da casa, num estilo quase filme desastre, e infelizmente as semelhanças com as obras cinematográficas sobre catástrofes não termina aí. O filme não tem nenhum cuidado especial com seus personagens, resume os arcos a pequenas sugestões de algo que seria uma personalidade rasa até para um personagem sazonal de sitcom barata. Mas o maior dos problemas com os personagens é a falta de respeito com eles em si, que muitas vezes são usados apenas como artifícios para o filme criar momentos agoniantes.

É preciso acrescentar também que isso tudo é orquestrado pelo design de som mais sem graça do mundo, não existe uma tentativa de inovar aqui, você vai ouvir a mesma música ficando progressivamente aumentando e parando repentinamente antes de um jumpscare, os mesmo zumbidos, os mesmos sons sem graça de qualquer filme de terror barato, que acaba sendo o maior condutor do terror do filme. Quer dizer, seria se não fossem os designs dos monstros, que conseguem aí sim ter algo de agoniante, apesar de não chegar perto de coisas como os animais de aniquilação e nem serem usado tão bem narrativamente por exemplo, é com certeza é um dos pontos altos do filme.

Um dos pontos altos pois, aqui também temos também uma grande estrela, que salva muito o potencial como entretenimento desse filme, nicolas cage entrega uma atuação que apesar de não ser uma das grandes da carreira dele, como em Leaving Las Vegas ou Adaptation, consegue refazer o feito de Raising Arizona de ser uma atuação que atrai sua atenção, e sinceramente é bem gostosa de assistir, é bom também as notas um pouco mais vicerais que lembram bastante o trabalho dele em mandy.

Mas esse texto não é para falar de mandy, e nem da carreira do Nicolas Cage infelizmente. Todas as outras atuações não tem nada de muito especial, na verdade o único que não está especialmente horrível em seu papel é o Jullian Gillian, a criança prodígio de greener grass, que não vai muito longe, mas o que pode-se cobrar de uma criança de 9 anos?!

A edição e o roteiro em si não tem nada de muito especial, mesmo com alguns pontos altos, os pontos baixos são tão baixos que não dá nem para se satisfazer com isso, se a edição nós primeiros minutos nos primeiros minutos nos deixa um pouco perdidos espacialmente, o roteiro sem substância parece ter muito medo de você se perder, porque ele te entrega tudo da maneira mais mastigada possível.

“E para o grande clímax do nosso filme? Que tal darmos protagonismo para um personagem que só passou no máximo 25 minutos em tela! Ótima ideia.” Esse filme acaba em uma nota tão baixa, e abrupta, sem resolução quase, que é até difícil falar sobre sem soar irônica, não tem mto mais o que falar aqui, esse é o fim do filme.

Em conclusão, esse é um filme que não tem mto de ser, adapta uma mídia mto difícil de traduzir pro cinema e só é salvo por alguns pontos individuais onde consegue ser forte, mas em geral é esquecível, principalmente saindo de uma década que teve filmes de terror tão bons e diversos, o alarde criado em torno desse filme não é justificado. Talvez a carencia de obras de terro lovecraftiano tenha criado uma demanda muito grande, a qual pouco importa as qualidades essenciais do filme, que aqui estão em falta.

Nota: 2.3/5.0

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As cores do cinema Georges Méliès

Quando se fala dos primeiros dias do cinema, a imagem que se forma em nossa cabeça é dos clássicos filmes mudos em preto e branco; Para alguns mais conhecedores a imagem pode até ser a de um cinema que apenas trazia consigo imagens que retratavam objetos do dia-a-dia, como nas famosas histórias sobre como os espectadores reagiram desesperados ao assistir em 1896 L’Arrivée d’un Train à la Ciotat achando que iam ser atropelados pelo trem da obra dos irmãos lumière; Mas um dos nomes que não fica de fora é o do ilusionista Georges Méliès.

Méliès viu no cinema uma oportunidade de criar uma forma de levar seu trabalho de mágico ainda mais longe, podendo criar ilusões de mundos inteiros, seja ele o espaço como na sua obra mais famosa Le voyage dans la lune de 1902 ou para ou o reino das fadas, como em Le Royaume des fées.

Porém apesar da criação de mundos diversos e sendo um dos pais (se não o pai) dos efeitos visuais, a coisa que mais me impressiona no trabalho do Georges Méliès são os poucos filmes encontrados coloridos a mão. Não apenas pelo fator curiosidade histórica de ver um filme do começo do cinema completamente em cores, mas pela dedicação colocada nesses filmes coloridos frame a frame.

Às cores vibram, e te levam para um lugar único, é como se as cores fossem inseparáveis da obra, mesmo que na maioria das vezes sejam vistas em preto e branco, existe uma qualidade irreplicável em um filme colorido a mão, que é quase onírica, e que vai tão bem com as histórias e mundos fantásticos desses filmes.

Filme colorido de Le Royaume des fées.

Esse texto foi uma tentativa de fazer algo diferente e falar de um aspecto específico que me interessou na obra de um diretor em específico, a ideia é fazer isso ao falar de diretores e filmes que tem algo de muito especial, que eu quero falar sobre.

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Crítica: Time (2020)

Pessoas desesperadas fazem coisas desesperadas.

Você já se sentiu quase como a observar o tempo? Já viu os dias, semanas e meses passando, vendo o ano acabando, com o sentimento que o tempo apenas é jogado fora, como se nada acontecesse e a vida fosse apenas uma grande espera? É sobre isso que se trata o primeiro longa documental de Garret Bradley, sobre esse tempo, que pela ausência se faz sentir mais forte, mais doloroso e mais lento, nesses momentos em que o tempo é quase um ser tangível e tão cruel quanto infinito.

Em time seguimos a família Rich, que vive há quase 20 anos com um desses buracos, uma dessas ausências, na qual o tempo se torna sólido. O pai da família, Rob Rich, foi preso após uma tentativa de assalto a banco, em um momento de desespero e por esse delito foi condenado a 60 anos de prisão. E acompanhamos desde os primeiros anos de encarceramento até os tempos atuais Fox Rich, sua esposa, que luta contra o sistema carcerário, e a solidão, enquanto cuida de 6 filhos. E que a cada ano sobrevive com a esperança que esse ano será o ano finalmente em que os seus filhos terão finalmente um pai em casa.

A beleza desse documentário se encontra principalmente na tentativa de representar o tempo, e medi-lo não por anos, meses, semanas ou dias, mas por sentimentos, pela falta que esse tempo faz, e esse é realmente o único jeito de entender o que realmente é esse tempo, e o quão desmedido uma sentencia como essa pode ser. E aqui que mora a maioria dos méritos do filme, a decisão pelo preto e branco realça a textura da pele o que deixa bem claro o envelhecimento dos personagens envolvidos, são colocados alguns planos não relacionados com a narrativa principal apenas para realçar o passar do tempo e entre as gravações que variam principalmente entre o presente e um passado muito distante, é colocado em perspectiva o tanto que esse tempo foi devastador com gravações de momentos chaves no desenvolvimento pessoal dos filhos da família. Mas isso é o suficiente para experiênciar esses 20 anos.

Quando se fala sobre a mensagem, não existem muita uma discussão sobre o quão quebrado é o sistema carcerário nos Estados Unidos, ou quão quebrado é o sistema capitalista que força essas pessoas a esse lugar onde tem de sofrer até as últimas consequências, o intuito aqui não é fazer um filme protesto. E talvez aí que esteja o grande problema de Time, ele se torna um filme muito fissurado com o sentimental e acaba se tornando vazio em todos os outros aspectos, um exercício vazio de empatia, que apesar de muito bom, não tem um proposito e joga fora um potencial incrível de algo atual e que precisa ser discutido. Esse é um filme que se repete muito, quando poderia estar se definindo como filme e como obra, encontrando uma voz, discutindo realmente o sistema. O filme não se torna apenas cansativo, ele se torna vazio e te faz questionar “Para quem é esse filme?” Esse não é um filme para ativistas negros que procuram na arte força para sua luta. Esse não é um filme para se relaxar e assistir. Para quem é esse filme?Para uma esquerda branca, que procura na empatia, achar afirmação ?

Além disso, os personagens dessa trama são tratados com MTA superficialidade, no final esse é um filme que se foca numa boa tecnica, mas que se perde ao tentar dizer algo, e se aprofundar na narrativa que tem em mãos, apesar das fortes emoções, é um filme que se sente vazio de substância, entendo que existe um apelo grande, mas só citar um tema complexo não faz o filme em si complexo.

Nota: 3.2/5.0

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Crítica: Mulher Maravilha 1984 (2020)

Dirigido por Patty Jenkins e estrelado pela “maravilhosa” Gal Gadot, mulher maravilha 1984 é um filme de super-herói, sequência direita de mulher maravilha de 2017, também dirigido e estrelado pela dupla. Aqui além delas voltam apenas o coadjuvante Chris Pratt e algumas poucas amazonas do cast de apoio (apesar de alguns argumentarem que o baixo numero nos retorno de personagens queridos como soldado generico A ou soldado generico B se deve ao filme se passar 60 anos depois, eu argumentaria que ninguém que não estivesse contratualmente obrigado aceitaria voltar pra esse set depois do final do primeiro filme).

Todo modo apesar do filme se passar nos anos 80 ele abre muitos anos antes, com uma cena de abertura épica e tão profundo quanto as emoções demonstradas pelo Chris Pine ao longo desse filme, onde Diana (Aka mulher sionista maravilha) ainda criança trapaceia em um disputa muito justa onde ela enfrente pelo menos quatro mulheres adultas no auge de seus poderes físicos. E então após esse flash back tão deslocado que ficou até difícil de coloca-lo no texto (adoro quando um roteiro me desafia a destrinchar ele) estamos aí sim nos anos 80 – o que é uma grande oportunidade de você ver tudo aquilo que todos os filmes da infinita leva de revivals  dos anos 80 já te mostraram – e assistimos a mulher maravilha bater em bandidos em uma das melhores cenas de ação do filme, que são realmente o ponto alto aqui já que a equipe capitaneada por Patty Jenkins mostra que entendeu muito bem o filme anterior ao ponto de poder jogar fora tudo que ele tinha de bom e construir em cima de forma a deixar um filme consistente tematicamente, já que agora todas as partes são tão sem sal quanto o terceiro ato do filme anterior.

Mas é preciso também parabenizar a equipe de escrita (a qual Patty Jenkins também faz parte) pelo que conseguiram criar com um roteiro, que em viradas completamente fabricadas, consegue trazer de volta o interesse amoroso do primeiro filme interpretado por Chris pine (esse é o nome dele? Eu não sei mais, é com certeza algum Chris) e depois tirar em uma cena tão repentina quanto. E apesar de basear o arco da personagem principal completamente na aparição desse ex namorado (tal qual um episodio de um reality show da MTV) o filme consegue fazer esse momento ser leve, tirando completamente o peso que uma audiência poderia sentir no Adeus do personagem menos marcante da carreira de um homem que nunca fez um personagem marcante na vida. E é necessário ressaltar mais uma vez como os roteiristas desse filme são inventivos, a forma como ignoram regras básicas de build up. A construção não existe no roteiro?? Eles dão um jeito de encaixar o que quer que seja. Se eles conseguiram fazer isso pra trazer de volta o Chris Pine, eles também podem usar pra criar uma vilã super poderosa, que apesar da origem parecer algo tirado de um episódio de he-man, o design é bem atual rementendo diretamente ao clássico moderno cats.

E nada disso estaria completo sem os 60 minutos que separam o começo do filme do momento em que finalmente algo acontece, quase uma tentativa de um slice of life da mulher maravilha, que traz com si um “life” completamente artificial, como Hollywood gosta. E é incrível o jeito como a edição e a direção conseguem lidar com o vazio, deixado pelo roteiro. Os personagens tem uma consistência muito sólida, se o carisma do Pedro Pascal é jogado fora por falta de um personagem bem escrito, o mesmo acontece com Kristen wigg, e todos os outros personagens que devem somar juntos 15 minutos de tela já que esse é um filme muito focado em apenas 4 personagens.

Existe claro um fan service chave com momento icônicos da mulher maravilha, tipo um momento envolvendo um jato, e outro envolvendo a típica hipocrisia esquerdista, tão presente nos quadrinhos da mulher maravilha, onde se vê uma criticada sionista salvando criancinhas mulçumanas, mostrando que ela não diferencia pessoas e que #AllLivesMatter* (exceto é claro se não tiver uma câmera apontando pro rosto dela).

Apesar de tudo isso é impossível não notar que o filme tem sim seus defeitos no que se diz ao fator diversão, ele simplesmente esquece seu ritmo sem sal no terceiro ato e só volta a ser realmente um filme do nível que era, na luta final, que pode-se resumir a Gal Gadot gritando com o Pedro Pascal até ele desistir de destruir o mundo (spoilers: Ela consegue). Em geral mulher maravilha 1984 é um filme que vai terminar te deixando com essa sensação boa de que qualquer um dos outros 1983 mulher maravilha seriam uma escolha melhor para gastar o seu tempo, o que dá uma bela perspectiva do que pode vir por aí na franquia.

*Nota da autora:
All Lives Matter é um caralho.

Nota: 1.2/5.0

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Crítica: Soul (2020)

Isso aqui é água . Eu quero o oceano.

Dirigido por Pete Docter, e protagonizado por Jamie Foxx e Tina Fey, Soul é o 23° filme da Pixar, lançado em 25 de dezembro de 2020, em uma segunda tentativa da disney de lançar um blockbuster direto em seu serviço de streaming, o primeiro tendo sido o desastroso live-action de Mulan, o qual parecia mais uma aberração ambulante de uma indústria doente, do que um filme propriamente dito, assim como a maioria dos filmes da maior e mais conhecida empresa de filmes da história, que a cada ano parecer crescer ainda mais, chegando até ao absurdo de comprar a 21st Century Fox. E é importante deixar bem claro tudo isso antes de falar qualquer coisa sobre soul, entender o tipo de indústria doente que se encontra e da empresa multi-milionaria de onde saiu esse filme apesar de clichê e batido, é importante para entender e contextualizar algumas ideias contidas nesse texto.

Soul começa acompanhando Joe Gardner (Jamie Foxx) um músico e professor de jazz – muito mais professor de jazz do que músico para dizer a verdade – que após conseguir o que ele julgará como a grande oportunidade da sua vida de alguma forma acaba se encontrando em uma esteira em direção ao pós vida, onde completamente contrário a ideia de morrer exatamente no dia em que finalmente teria encontrado sua chance de se tornar um grande músico de jazz, desesperadamente procura um meio de sair dali e voltar à sua vida normal, e viver mais um dia. Em sua aventura para encontrar a volta para seu corpo ele acaba encontrando uma alma em formação, identificada apenas com 22, a qual se encontra incapaz de achar algo que a conecte com o mundo e consiga torná-la uma alma completa.

E é dentro desse enredo, que pode parecer com algo vindo de um filme europeu algo na vibe de um bergman ou um Wenders, que nasce um dos filmes mais maduros da pixar. Mesmo numa narrativa bem mais leve e com personagens típicos de um filme infantil, muita vezes poucos inspirados e unidimensional, o que temos aqui é uma complexidade ao abordar os temas do filme que é bem menos óbvia do que o seu tipico filme infantil. Apesar do roteiro cair para clássica forma da pixar ela tem suas subverções e em geral essa parece ser uma marca registrada do roteiro aqui, subverter um pouco o que é esperado pelo espectador desse tipo de narrativa, e das temáticas, e muito disso vem de como o arco dos dois personagens principais se encontram, que são 2 personagem que crescem um passo a mais do que o óbvio para esse tipo de narrativa, eles dois tem os seus “wants vs needs” clássicos, que são mais óbvios e aparentes, mas também se encontram tendo um passo a mais para esse lado, principalmente o personagem do Jamie Foxx que se encontra indo para um lado bem corajoso narrativamente falando, mas que na cena final talvez anule um pouco essa resposta tão interessante para um dos problemas propostos pelo roteiro.

Falando no Joe Gardner, é nele e nos seus conflitos, no seu amor pelo jazz onde o filme realmente se encontra, apesar do filme ter 3 ou 4 estilos distintos, tendo desde personagens chibis, 2D bem estilizados e alguns mais “realistas”, tendo cenários que ressoam com cada um desses estilos de maneira bem bonita, é na nova York de Joe Gardner que se acha realmente uma “alma” e o esforço para manter essa alma também é passado pelos personagens, que se nas partes passadas no pós-vida são unidimensionais e feitos para representar meramente conceitos, aqui eles parecem quase ter vida própria, eu destacaria especificamente uma cena envolvendo uma barbearia, a qual o escritor Kemp Power admitiu ter se inspirado no seu próprio dia-dia, e traz um resultado incrível.

Além de Joe, a 22, personagem da Tina Fey, também consegue encontrar algo bastante interessante aqui, apesar de começar como o seu tipico personagem sem sal da pixar, a qual não se espera nada além de um alívio cômico acaba crescendo com o filme, não só em seus alívios cômicos, que por vezes pode ser até complexos demais para um filme infantil, como numa cena onde ela chega a citar George Orwell, que deixaria eu de 6 anos bastante confusa. E aqui eu gostaria de deixar às ressalvas que talvez esse não seja o filme mais divertido da pixar para uma criança, mesmo que as piadas possam ser hilárias e algumas até fora de tom, como uma mais para o final do filme, aqui não há o exagero típico de filmes infantis da illumination, a qual não importa o quanto eu critique, predomina nessa parte do mercado.

Apesar de tudo isso, é impossível não notar que o roteiro por vezes encontra respostas que podem ser bastante preguiçosas para os problemas que ele mesmo compõe, tendo alguns Deus ex machina, e uma passagem do tempo que parece muito mais longa do que o filme realmente propõe, causadas por alguns “fade to black” onde a direção não se dá ao trabalho de tentar encontrar uma forma de deixar sua passagem de tempo mais clara, e ele ainda cai pra alguns dos clássicos erros narrativos de filmes da pixar como um padrão bem óbvio nas funções de cada personagem na trama.

Ainda assim soul é uma prova que ainda existem pessoas dentro dessa indústria que não se vêem apenas como uma engrenagem, é um filme que exaure um amor por si próprio e por todos os envolvidos com ele. Um filme que ama a música, ama o jazz, que o conjunto do diretor de Monstros SA (um filme com uma linda trilha composta por Randy Newman) com três outros compositores que incluí até o experiente Trent reznor, que inclusive já ganhou um Oscar pela trilha da rede social, e aqui ele faz o trabalho de trazer ainda mais vida e amor pra essa obra, que apesar de estar inserida nesse modelo hollywoodiano e sofrer de muito dos problemas que só o capitalismo tardio poderia causar  à arte, acha formas de ser livre e em alguns momentos consegue até ser um ar fresco nessa indústria, tendo um ar que por alguns poucos minutos lembram até um dos bons filmes indo dessa década que acabou.

Nota: 4.2/5.0

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Crítica: Carol (2015)

Tenso, bonito, denso e acima de tudo apaixonante.

Ok, eu prometi fazer críticas sobre todos os filmes que eu assistir daqui para frente nesse ano (ou quase todos já que eu não posso falar dar spoiler de qual o próximo filme no meu podcast) o que tem se mostrado uma tarefa extremamente difícil já no 3º filme. Talvez principalmente nesse terceiro filme.

Carol é o sexto longa de Todd Haynes, diretor de Far from Heaven (2002), Velvet Goldmine (1998) e pelo seu trabalho mais conhecido, a biopic do Bob Dylan, I’m not there (2007), na qual o cantor é interpretado por 6 atores diferentes, incluindo Christian Bale e Cate Blanchett (uma das estrelas de Carol). Aqui, em sua segunda colaboração com a atriz ganhadora do Oscar de melhor atriz de 2014, ele decide por fazer um romance bem peculiar.

Peculiar que é a palavra perfeita para definir Carol, mas não por se tratar de um romance lésbico nos anos 50 nem nada do gênero, mas sim pelo jeito que ele encontra de tratar esse “romance proibido”. Não me leve a mal, Romances Proibidos não são nada novo no cinema e muito menos na Literatura (Shakespear que o diga) e todos esses encontraram formas de lidar com tanto com sua paixão quanto com a proibição dela, mas o jeito que a narrativa, as personagens, os sons e até a própria câmera se moldam a esse Romance é o que há de único aqui. Esse é um filme em que as personagens se encontram em lugares tão opostos da vida e com personalidades tão distintas que o encontro delas se faz de forma inesperada e muito cheio de nuance, o jeito que a atuação da Rooney Mara é timida e cheia de jovialidade se choca com uma Cate blanchett que parece tão misteriosa e em uma certa medida tão amargurada quanto “experiente”, acaba gerando momentos de pura tensão, no sentido mais hitchcockiano possível da palavra. São duas mulheres que apesar de sentirem uma óbvia atração uma pela outra se encontram num impasse, seja por simplesmente não ter se descoberto ainda ou pelo peso exercido pela sociedade.

E é com isso em mente que a Fotografia e a Direção de Arte trabalham, a começar com um uso de 16 milímetros que ressalta as cores e te traz um sentimento remanescente de filme de época que não funcionaria tão bem sem um design de produção tão bom, que encontra – também junto com a fotografia – meios de retratar um ambiente frio que acha vislumbres de quentura na personagem da Cate Blanchett, muita das vezes usando roupas de um vermelho forte. Sem falar de como o Diretor, junto com o DP Edward Lachman conseguem encontrar formas de exaltar o sentimento de estar vendo algo secreto, sempre colocando a câmera em brechas entre duas ou mais paredes, a menos quando ele quer ser intimo, claro, e é aí que ele se torna brilhante.

Tematicamente, porém, esse é um filme vazio de grande discussões, apesar de sua temática, e do cinema LGBT em si ser geralmente muito carregado de política. Esse é um filme que quer te botar na pele dessas mulheres e debater ideias de opressão, as quais ele com certeza toca, mas muitas vezes de forma muito direta e caricata, até ser jogado fora. Também é passível de nota o quão branco é esse filme, nem um figurante negro conseguiu escapar do projeto.

O filme consegue usar toda essa tecnicalidade em prática de uma forma, que além de tenso, bonito e denso, é , também, apaixonante. Esse é um dos poucos filmes em que eu me senti investida em uma relação de maneira tão intensa, seja pelos diálogos, pelas já citadas incríveis atuações, pelo quão próximo o diretor vai no dia-dia da Therese entre o começo do primeiro ato e o mid-point, ou pela simples identificação com uma personagem que ao mesmo tempo é tão passiva e tão “na sua”, a qual ao longo de seu arco se encontra tendo que dobrar e mudar essas característica.

Nota: 4.4/5.0

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Crítica: Amarelo Manga (2002)

Meu primeiro texto sobre cinema nacional .

Bem, antes de começar qualquer tipo de crítica, eu sinto que preciso pedir desculpas, não só para o leitor, pela indecência de demorar tanto para falar de cinema nacional, mas também para o próprio cinema nacional, o qual tive tantas oportunidades de falar sobre e fiquei calada. A verdade é que à medida em que algo é tão próximo, e guardado por tantas emoções, é mais difícil encontrar as palavras que caibam com precisão nossos sentimentos, e é assim que o nosso cinema me faz sentir, muitas vezes me vi na beira de começar um texto sobre Tatuagem (2013) ou Bacurau (2019), mas não parecia certo, tudo pendia para um lado muito pessoal ao qual não tenho como desvincular da crítica e nem como faze-la compreensível para qualquer um que não tenha habitado minha mente pelos últimos 20 anos, e como alguém que tem muitas ambições em tirar do papel roteiros e construir grandes filmes, eu também estou completamente a par do quão dolorosa a missão de fazer uma produção dessas acontecer é.

Então… Mesmo assim, aqui estou eu, começando mais um texto sobre um filme que além de nacional, foi realizado no meu estado e por pessoas da minha cidade.
Por quê?
Porque esse é o tipo de cinema que eu preciso falar, o cinema que vai no meu mais profundo, alojado nas minhas entranhas, que desperte não só o meu amor por cinema, mas o meu amor por quem eu sou e meus sentimentos pelo mundo ao meu redor. O cinema que ecoa, que vibra, que não só diverte e entretém como ajuda a encontrar quem nós somos. Não, amarelo manga não é um filme perfeito, pode ser até medíocre em certos aspectos, ofensivo em alguns outros e até mesmo para mim, mas ele não deixa de falar com as imagens mais nítidas possíveis, quem eu sou, de onde eu vim e como eu parei aqui. E apesar de todos os seus defeitos, é assim que Amarelo Manga me faz sentir, é um encontro da criança recifense de 6 anos de idade com um mundo adulto, que por vezes pode ser muito sujo.

Mesmo após refletir sobre o tema, e saber exatamente tudo que eu gostaria de falar sobre esse filme, sobre suas cenas mais gore ou mais cômicas, sobre sua estrutura lembrando uma espécie de slice of life do recifense dos anos 2000, sobre as decisões da direção do Cláudio Assis, as ótimas atuações caricatas, acho que o que realmente precisa ser dito já foi falado nos 2 parágrafos acima, é um retrato de recife nu e cru de uma forma que só quem morou aqui pode entender.

Nota: 5.0/5.0

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Crítica: Da 5 bloods

Tudo que Linklater não conseguiu fazer em Last Flag Flying.

Da 5 Bloods é um filme norte-americano dirigido por Spike Lee, a mesma mente por trás de Do the Right Thing (1989), BlacKkKlansman (2018), Malcolm X (1992) e muitos outros filmes, em geral sobre cultura preta. Aqui ele aposta em mais uma história em torno desta mas, como em todos os seus filmes, fazendo sempre uma crítica ao próprio movimento ao mesmo tempo em que exalta seus ideais e seus valores, colocando sempre os personagens em contradições. Contradição essa que aqui se faz presente desde o primeiro momento, ao escolher contar a história de veteranos pretos da Guerra do Vietnã (ou seria Guerra Americana?) voltando nos tempos atuais ao país que traumatizaram e em que foram traumatizados, em busca de algo deixado para trás durante os tempos de guerra. Porém, a contradição não poderia ficar apenas nos dias atuais, até porque esses quatro veteranos lutaram na guerra enquanto no seu país eclodia um grande movimento em busca de direitos para o seu povo; Usando as palavras do próprio filme, “Lutando pelos direitos que eles mesmos não têm”. 

É com essas duas timelines muito bem representadas, uma em 1.33:1 (4:3) 16mm e outra em 2.39:1 (ultra wide) 35mm, que somos apresentados aos personagens principais e os seus conflitos. O discurso aqui é muito político como todo cinema do diretor e, como não poderia deixar de ser, muito cheio de metáforas e nuances. O jeito com que (desde o começo de sua carreira) Spike usa ângulo frontal para colocar o espectador de frente para os personagens acha meios inteligentes de impactar o espectador, além dos personagens se posicionarem de maneiras bem explícitas sobre suas posições políticas, principalmente Paul (Delroy Lindo) e seu filho David (Jonathan Majors), que se junta ao grupo em algum momento do filme. Pode-se argumentar que estes são os personagens em que o roteiro parece mais interessado. Assim sendo, um dos pecados do filme é a falta de desenvolvimento de alguns outros personagens: dos quatro veteranos, apenas dois são realmente desenvolvidos, sendo eles o já citado Paul, que lembra uma versão moderna do arquétipo de Kikuchiyo de Os Sete Samurais, e Otis (Clarke Peters), a pessoa calma que tenta se opor ao colega. 

Dito isso é preciso ressaltar a força das atuações, principalmente a de Delroy Lindo, que entrega tudo que aquele personagem precisa sem perder, ou melhor:  adicionando nuances que deixam o personagem com uma complexidade linda e que culmina em um dos momentos mais lindos do filme. Chadwick Boseman (em suas poucas aparições como Norm) também entrega o que seu personagem pede; Ele consegue se mostrar como líder e como alguém sensível e que respeita seus ideais. Além desses dois, Clarke Peters também faz jus ao seu papel, em uma atuação que, apesar de só conseguir tomar a tela quando Delroy não está em cena, consegue ter seus momentos de brilho. 

É assim, com um elenco que junta a estes Jean Reno, Norm Lewis, Isiah Whitlock Jr. e grande elenco (hihi sempre quis falar isso) que o diretor coloca seus temas na mesa. Os assuntos, a propósito, acabam se estendendo tanto que vão além de simplesmente nomear lados ou de usar personagens como simbolismos. Spike Lee, assim como em suas melhores obras, coloca todo um debate e evidencia todas as já citadas contradições de discurso. Ele se mostra muito acima da simplicidade do discurso, ele não quer te encher com o mesmo discurso que você já escutou mil vezes, apesar de colocar em evidência todas as questões que esses discursos colocam e que obviamente são questões importantes. 

Entretanto, em questão narrativa o filme demora a se encontrar e chega em seu midpoint de forma meio cansativa, até se transformar em outra coisa completamente diferente. Essa coisa acontece de forma meio abrupta e talvez exatamente por isso se desfaça do peso de um momento importante, que mesmo assim não deixa de ser chocante. É aí que o filme se mostra como algo bastante diferente e divertido: o clima fica mais acirrado e os conflitos vêm à tona de forma explosiva. 

Além de tudo já dito também é preciso ressaltar o cuidado estético do filme, que quando usa o já citado 16mm grita “GUERRA DO VIETNÔ; que usa uma super oito num dos momentos passados no dia de hoje dando um efeito nostálgico;que em uma cena bastante poética onde a vegetação, apesar de não exagerar tanto nas cores, me lembra a sensação da série de fotografias em infravermelho tiradas na guerra do Congo; e que utiliza de inserções de fotos e pulos narrativos que lembram bastante nouvelle vague. 

No fim das contas, Da 5 Bloods é um filme que tanto diverte, como carrega um discurso inteligente que consegue se deixar claro na camada mais superficial mas tem suas nuances. O filme consegue terminar numa nota alta, apesar de uns probleminhas de ritmo e tropeçadas aqui e ali. É impressionante ver Spike Lee fazendo mais um grande filme, mostrando que ainda tem talento e, mais do que isso, ainda tem muito o que dizer mais de trinta anos depois de seu primeiro filme comercial. 

Nota: 4.2/5.0